Let's have some coffee

Crio raízes nas profundezas do eu. É preferível tentar arduamente, mesmo que sem sucesso, conhecer-se a si próprio a permear a superfície de tudo. N.

Crio raízes nas profundezas do eu. É preferível tentar arduamente, mesmo que sem sucesso, conhecer-se a si próprio a permear a superfície de tudo. N.

Aquilo não foi apenas uma simples brincadeira de imaginar. Era real, eu estava ali e sentia sobre a pele, entrando pelas veias, sacudindo as vísceras.  Não era palpável, e prometi desde aquele instante que pararia com a maldita mania de não acreditar no que não se sente com as mãos. Aquela sensação gélida que invadia meu corpo não estava ali por acaso, e é nela que eu me reabasteço depois do bafo diário de desânimo que a rotina dá. Nada como a brisa da noite no banco da praça abandonada. Nada como um pouco de solidão.

Natali T.

É hora de retirar a armadura, deixar o racional na mesinha de cabeceira, e mergulhar nas águas profundas do sono, o oceano mais solitário, que nenhum homem nem seu exército pode invadir e aniquilar. O dia da noite, a parte clara do que é escuro, o mais individual do existir. Eu e meu inconsciente na hora da verdade, momento de revelar o que insisto em esconder, mostrar a arte que a mente faz com os pensamentos que nela despejo ao longo do dia. A imaginação discorre sobre os anseios guardados e eu fico paciente, atenta ao que ela tem a dizer. Sonhos são válvulas de escape, são contos bons ou ruins, que descrevem tudo o que se quer dizer mas o consciente se nega. Oh Deus, quero não ter que retirar minha armadura no fim do dia, e depois de um breve passeio em meu mundo, ter quer colocá-la novamente. 

Natali T.

As oscilações da vida causam vertigens. Os dias parecem criados para navegar em um oceano incerto. Cada segundo muda de caras como um Drag Queen se transforma em mil e um personagens diferentes, mas dentro de si guarda a sua própria personalidade, que se habitua a situação em função de alguns trocados. Porém em algum lugar, em alguma parte do grande cordão da humanidade, estamos nós disfarçados em nosso dia a dia, procurando pela tranquilidade que pode não chegar, pois o grande cordão sofre oscilações, como as ondas de rádio que nos envolvem invisivelmente, e não há nada que acalme essa frenética movimentação que provoca náuseas, mas que sem ela a vida não teria a menor graça.

Natali T.

O caos de viver constrói uma barreira na vida de algumas pessoas, assim como ativa a sensibilidade de outras, possibilitando a análise de alguns fatos tolos, porém passíveis de gigantes reflexões.  Preparando-me pra mergulhar em minha rotina interminável, cruzo com algo que é aparentemente simples, mas que desencadeou alguns questionamentos durante meu dia, que começava quando uma sacola de plástico flutuava pela rua, com movimentos semelhantes aos de um pássaro, que se exibe aos outros animas que são incapazes de voar. Pode ser loucura, mas imagine a trajetória dessa sacola até que ela viesse parar ali, que grande coincidência ter cruzado o meu caminho, enquanto muitos passam por ela sem lhe atribuir valor algum. Quanto tempo se passou, até que o ser humano pode desenvolver técnicas para produção destas, porém quão rápida foi a ignorância humana em jogá-las em qualquer lugar. Para os que gostam de lidar com números, 1 manhã gélida mais 1 sacola flutuante é igual a uma população de 7 bilhões de seres humanos que se consideram animais racionais, evolutivamente superiores em relação aos outros, porém que não conseguem lidar com os vários tipos de “sacolas” que circundam suas atitudes, o meio em que vivem, suas manhãs, a vida.

Natali T. 

Acontecimento

"Haverá na face de todos um profundo assombro 
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva 
Muitos se reunirão em lugares desertos 
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres 
Como se o milagre tivesse realmente se realizado 
Muitos sentirão alegria 
Porque deles é o primeiro milagre 
Muitos sentirão inveja 
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes 
Muitos não compreenderão 
Porque suas inteligências vão somente até os processos 
E já existem nos processos tantas dificuldades… 
Alguns verão e julgarão com a alma 
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm 
Ouvirão apenas dizer… 
Será belo e será ridículo 
Haverá quem mude como os ventos 
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos. 
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho 
Escutando verdades e mentiras 
Mas não dizendo nada. 
Só a alegria de alguns compreenderem bastará 
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem 
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.”

Vinícius de Moraes

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, á margem de nós mesmos”
— Fernando Pessoa (via livrariapessoal)